DR. ANTÓNIO BORGES | 1918 – 2018

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Evocamos hoje, 5 de outubro de 2018, a memória de um homem que à sua época, se constituiu como uma força viva da nossa Terra.

Dr. António Borges Rodrigues, faleceu há exactamente 100 anos, no dia 5 de outubro de 1918, dia em que se comemorava a Implantação da República, a sua República, sendo ele um forte defensor dos ideias republicanos.

Nasceu em Vila Nova de Tazem às 3h do dia 29 de setembro de 1869.

Era filho de António José Rodrigues, ferrador de profissão e de Ana de Jesus Borges, ambos naturais de Vila Nova de Tazem.

Era neto paterno de José António Rodrigues (natural de Caminha) e de Angélica Rosa (natural de Vila Nova de Tazem) e neto materno de Manuel Borges Garcia (natural de Vila Nova de Tazem) e de Josefa Maria Lopes de Campos (natural de Vila Nova de Tazem), esta última filha, de Tomé Lopes de Campos, que foi assassinado pelas tropas francesas no dia 19 de março de 1911, durante a 3ª invasão napoleónica, juntamente com outros 5 vilanovenses.

 

Dr. António Borges, formou-se em medicina na Escola Médico-cirúrgica do Porto seguindo em todos os aspectos, os passos do seu tio e padrinho de batismo – o grande benemérito, Dr. Joaquim Borges Garcia de Campos (1839 – 1911) – tanto na profissão de médico como na forma humanitária e carinhosa como tratava os seus utentes, especialmente os mais carenciados e desprotegidos.

Como político, seguiu igualmente os passos do seu tio, tendo sido um homem bastante influente, principalmente nos concelhos de Gouveia e Seia.

Casou em 30 e maio de 1914 com D. Maria José Tinoco Borges, nascida em Nogueira do Cravo, Oliveira do Hospital em 1889. Deste casamento nasceu uma única filha, Ana Maria Tinoco Borges.

Foi patrono do Centro Dr. António Borges por convite do fundador desta associação de recreio destinada à classe média de Vila Nova de Tazem.

Em 1955, o “Jornal de Gouveia” numa edição especial sobre Vila Nova de Tazem, faz alusão ao Centro Dr. António Borges, num artigo intitulado “Associações Culturais e Recreativas de Vila Nova de Tazem”, artigo que aqui transcrevemos tal como foi publicado:

“O Centro Dr. António Borges, associação de instrução e recreio, sem cor política, como rezam os seus estatutos, foi fundado em 1 de janeiro de 1915.

A classe média, digamos com mais acerto, a classe de artistas de Vila Nova, que bem pode orgulhar-se de contar no seu seio autênticos valores, não tinha qualquer associação sua, recreativa, onde pudesse distrair-se e descansar uns escassos momentos em fraternal convívio associativo depois de cada dia de intenso labor. De sol a sol, era, por essa altura, o seu código de trabalho, e à noite, se não ia deitar-se com as galinhas, ficava-lhe o recurso da taberna.

Ao tempo, apenas existia em Vila ova de Tazem o “Clube Boa União”, associação recreativa que fora fundada muitos anos antes pelas pessoas mais graduadas desta localidade, com marcada posição social e política. Tinha casa própria, que fora construída por quotização entre fundadores e onde não entrava quem queria…

E foi um artista quem fundou o Centro Dr. António Borges! José Borges Horta, industrial de sapataria, foi de facto e de verdade, o seu principal fundador.

Homem simples e modesto, mas inteligente e bastante lido, possuidor de uma biblioteca notável e muito empreendedor, verdadeiro autodidacta em quem imperava o espírito associativo, foi quem, em finais de 1914 alvitrou a fundação da colectividade.

Propôs isso ao então amigo, António Oliveira, outro espírito empreendedor e a quem o Centro Dr. António Borges muito ficou devendo e que foi, após a morte do seu fundador, a alma de toda a actividade – e muito grande foi ela – a quem falou com grande entusiasmo e pediu colaboração. Desde muito novo, António Oliveira, granjeou, mercê da sua inteligência, da sua maneira de ser muito própria, a simpatia e mesmo certa preponderância nas pessoas que com ele privaram.

E assim é que, apesar de julgarmos ninguém insubstituível, quase nos parece que António Gouveia dificilmente o será, mormente no que diz respeito ao progresso da terra que lhe foi berço e a quem tanto quer. A conversa repetiu-se em alguns dias mais, tornando-se extensiva a outros amigos. Discutiram-se pormenores de organização e, decorrido pouco tempo, o seu sonho a todos contagiava.

Numa primeira reunião, convocada pelos dois primeiros, nomeava-se a comissão de que também eles fizeram parte, que iria junto do Sr. Dr. António Borges, expor o plano em marcha e solicitava a S. Exª consentimento para que o seu nome desse nome à associação que ia fundar-se.

O Sr. António Borges, médico ilustre e generoso, a bondade personificada, o continuador seguro da obra grandiosa legada a Vila Nova pela extraordinária alma de vilanovense que foi seu tio – o grande benemérito Sr. Dr. Joaquim Borges – recebeu familiarmente, como era seu hábito, aquela comissão, e acedeu, sensibilizado, até às lágrimas.

            Foi elaborado um projecto de estatutos, e o Centro Dr. António Borges – o grande sonho de José Borges Horta – era uma realidade em 1 de janeiro de 1915.

            Decorreram num ambiente de bastante entusiasmo os primeiros tempos. José Borges Horta, António Oliveira e Fernando Caetano da Cruz Abrantes (a primeira direcção eleita) dirigiram os destinos da colectividade que logo de entrada associava cerca de 50 pessoas, trabalhando ardorosamente.

Iniciara-se a biblioteca. Liam-se livros, jornais e ilustrações e jogava-se, graciosamente, jogos simples como a sueca, o quino, as damas, etc., não se consentindo os jogos de azar ou os jogos a dinheiro.

No findar do primeiro ano, fez-se teatro, de graça, para os associados e suas filhas, e maior número de sócios ali ingressou.

            Duas grandes desgraças porém eluntavam a breve trecho o Centro Dr. António Borges, trazendo à vida associativa enorme desânimo: a morte prematura do fundador, presidente da direcção e alma da colectividade, Sr. José Borges Horta, ocorrida inesperadamente a 22 de novembro de 1916, e a morte do patrono da casa, Sr. Dr. António Borges Rodrigues, vítima do seu dever pessoal, quando combatia a terrível epidemia da “pneumónica”. Faleceu a 5 de outubro de 1918, enchendo de luto esta terra que o idolatrava, quando tanto havia ainda a esperar da sua inteligência, da sua bondade e do seu bairrismo em prol de Vila Nova de Tazem, sua terra natal.

            Sucessivamente, foram servindo nos corpos gerentes do Centro Dr. António Borges, prestando-lhe relevantes serviços, os Srs. António Augusto da Costa, Padre António Rodrigues Borges, Francisco Nunes Rodrigues, Fernando Abrantes, Joaquim António Fernandes Jorge, João Dias Ferreira, Eduardo Carvalho de Figueiredo, etc.

Como sucede sempre, e em tudo, teve o Centro Dr. António Borges nos anos que se seguiram, fazes boas e fases más. A falta de casa própria levou esta associação à quase paralisação do seu movimento, chegando mesma a não ter casa e a ter que guardar o seu mobiliário (bem reduzido ao tempo) num sótão de casa amiga.

E foi em princípios de 1928 que António de Oliveira, rodeado de bons amigos associados do Centro, como Fernando da Cruz Abrantes, António Barril, José Nunes Baptista, João Dias Ferreira, António Correia e outros, fez reviver a colectividade.            

As Ex.mas Sras. D. Maria José e D. Ana Maria Tinoco Borges, ilustres viúva e filha respectivamente do saudoso patrono do Centro Dr. António Borges, cederam generosamente e bondosamente uma casa velha onde a associação já estivera provisoriamente instalada, ofertando ainda alguma madeira para ajuda das obras a realizar. E não tardou que tudo se demolisse e no mesmo lugar uma nova e esplêndida casa fosse edificada – hoje sede e propriedade do Centro Dr. António Borges.

Registaram-se então as melhores dedicações. Foi feita uma subscrição entre sócios e não associados que rendeu avultada quantia. Gastaram-se os fundos associativos e a respectiva Direcção ficou ainda com encargos de certa monta. Para os saldar, tomou a mesma direcção medidas especiais, aumentando as quotas, reduzindo as despesas e promovendo festas. Deram brado pela organização e brilhantismo que atingiram algumas destas que esta casa realizou, e ainda, os espectáculos dados nesta localidade e em vilas próximas pelo grupo de amadores, constituído por elementos seus associados e gentis meninas de suas famílias, a quem deu concurso notável a orquestra ali filiada, sob a direcção de José Costa Pinto e seus filhos, felizmente com os melhores resultados financeiros e até sociais.

No período de 1937/40, o Centro Dr. António Borges registou a sua melhor fase de progresso e desenvolvimento.

Finalmente equilibradas as suas contas, fez esta casa aquisição de novo mobiliário e de um esplêndido bilhar. Montou um pequeno bufete para serviço dos sócios e instalou um fogão de aquecimento.

Uma vez mais, porém, o produto de subscrições cobriu a maior parte do dispêndio – uma mesa e duas cadeiras, oferta de outro, e ainda a mesa principal, oferta das oficinas Costa Pinto & Filho, sempre dedicados e generosos, como fora, ao tempo da fundação, o outro elemento desta família de artistas, o Sr. A.R. da Costa Pinto, comerciante do Porto e há muito falecido que, gentilmente ofereceu ao Centro Dr. António Borges o seu lindo estandarte em seda.

Na ordem progressiva, que deixamos anotada, chegou-se ao ano de 1940, e o Centro Dr. António Borges, 25 anos decorridos, festejou em 1 de janeiro daquele ano as bodas de prata. Festa linda em qualquer parte, a que então se realizou na sua sede. Festejaram-se os 25 anos passados e prestou-se homenagem ao Dr. António Borges seu patrono, e a José Borges Horta, seu principal fundador. Presentes mais de duas centenas de pessoas, entre as quais, grande número de associados, muitas senhoras e alguns representantes das mais distintas famílias locais. Presente ainda em estrado especial, as Sras. D. Ana Maria e D. Maria José Tinoco Borges.

            Casa ornamentada a capricho e profusamente iluminada, preside à sessão o Sr. Dr. Fernando Toscano Pessoa, ladeado pelos destacados elementos que ali se encontravam e usaram da palavra em discursos e improvisos felizes, os presidentes da direcção e da assembleia geral, o Sr. Dr. Alfredo da Silva Pires, em nome do Club Boa União e o Sr. Dr. Amadeu Rodrigues, em seu nome e no dos demais associados, fechando a sessão o consagrado e saudoso escritor Carlos Sombrio que dissertou brilhantemente sobre sociedades e colectividades de recreio, focando o espírito associativo que as anima e conduz tantas vezes à custa de enormes sacrifícios. Muitos aplausos da assistência e seguiu-se o baile, primorosamente servido, que durou até altas horas da noite.

            Em nova direcção desta casa, há que salientar ainda a acção de elementos como José e António Costa Pinto, António Barbosa, José Nunes Batista, Alberto Borges de Oliveira, Fortunato Júlio, Fernando Amaral, José e Mário Lopes, etc.

Alguns dos antigos directores e entusiastas, já cansados, foram cedendo o lugar aos mais novos, mas o Centro Dr. António Borges continua. Tem vida própria e poderá ir longe na alta missão para que foi criada desde que os mais novos saibam dedicar-se-lhe à maneira antiga, insuflando-lhe mais vida, sempre mais vida, e mantendo-a dentro das suas portas, como há 40 anos, a ordem, a disciplina e os sãos princípios de moral, que tudo são letra expressiva dos seus estatutos.”

 

Dr. António Borges, faleceu com 49 anos, no exercício da sua profissão de médico, vítima de broncopneumonia.

Posteriormente, e dado o destacado mérito da pessoa em causa, a Junta de Freguesia atribuiu o seu nome a uma importante rua de Freguesia, rua essa que ainda hoje, vai desde o Largo Joaquim Borges Artiaga, até ao início da Rua Manuel da Costa Morgado.

DR. ANTÓNIO BORGES | 1918 – 2018

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